Biografia

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Incómodo ao sossego (parte I)

Tinha segurado a taça de cristal com o dedo polegar e o indicador da mão direita. No interior da taça tinha vinho, à meia altura. Levava à boca a um ritmo muito calmo, como se os ponteiros dos relógios do Bairro do Jardim tivessem congelado naquela noite para o seu paladar deliciar-se do sedutor vinho tinto.

Dava gosto de ver. Ele estava sentado num sofá de um lugar, daqueles antigos, mas actuais para a época (1997). Era de quatro pernas traseiras, brancas e feitas de madeira em forma de quadrado. Os braços do sofá, com fronhas brancas, tinham uma altura que deixavam a parte do acento meio afundado, e a napa do sofá tinha cor verde. Depois de levar a taça à boca, não devolvia o copo para a mesa de centro, que era feita de madeira, no formato de uma oval. Mantinha as suas costas bem aconchegadas no sofá, com o braço direito apoiado ao suporte do sofá. Por vezes acariciava o vinho que ainda restava na taça, abanando ligeiramente a mão, movimentando levemente o líquido no interior da taça.

Almeida Camba Pilatos Chirindza estava em frente à janela principal da sua flat, e do lado direito tinha uma estante com a televisão preto e branco ligada. Almeida alternava o foco do seu olhar entre a televisão e a janela. Olhava muito pouco para a taça de vinho. Algo estava a girar na sua mente, algo parecido com um monólogo. De repente o seu raciocínio foi interrompido. David produziu um ruído ao sentar-se no sofá que estava bem ao lado do pai. Almeida olhou para o seu filho por uns segundos e num tom normal ordenou:

– Chama a Sarita!

David levantou-se e foi chamar a sua irmã. Em pouco tempo estava o casal na enorme sala, uma espécie de corredor largo da flat, pois partia da varanda à parede traseira, e aos lados tinham os demais compartimentos. A sala era toda pintada de branco. De um lado era sala de estar e do outro era de jantar, onde tinha uma cristaleira e uma mesa de madeira de oito cadeiras, também feitas de madeira, mas com o acento e o encosto de napa, que embrulhava algo que dava conforto. David voltou a sentar-se no seu lugar, ao lado esquerdo do pai e em frente à televisão. Sarita ficou de pé ao lado esquerdo do pai, ligeiramente na posição frontal.

– Pai, chamou-me?

– Sim! É para conversarmos…– sossegou Almeida à sua filha, a quem tratava como uma princesinha.

Sarita sentou-se ao lado do irmão. E o pai continuou…

– Hoje falar-vos-ei sobre rejuvenescer. Vocês sabem o que é isso? – questionou Almeida, enquanto abanava ligeiramente a sua taça de vinho, com os olhos concentrados nos rostos dos seus filhos.

Almeida tinha 46 anos de idade, David tinha 18 anos, mais dois que Sarita. Os irmãos olharam-se e os rostos não puderam disfarçar o sorriso que brotava, como quem dizia: - olha ele! Tem quarenta e tal e quer ser jovem. Ao ver a reacção dos seus filhos, Almeida não esperou outro tipo de resposta…

– Tem a ver com a forma como abordamos a vida. Rejuvenescer é manter o espírito de jovem, não se fechar para as novas aberturas do mundo. Por mais que passemos a fase da juventude faz toda diferença adoptar esse espírito….

Almeida envolveu os seus filhos naquela conversa. Por uns 30 minutos nem pareceu que a televisão estava ligada e bem em frente de David e Sarita. Por vezes, Almeida deixava a taça de vinho na mesa, para poder gesticular com os dois braços, outras vezes encostava mais no sofá e colocava o seu braço apoiado e ia acariciando o vinho com movimentos leves da mão direita, enquanto explicava detalhadamente o que era rejuvenescer. O casal abanava a cabeça para cima e para baixo e, por vezes, iam lançando algumas questões.

Ao fim da terceira taça, Almeida anunciou que estava na hora de ir dormir. Levantou-se e caminhou em direcção ao seu quarto…

 

-*-

Havia uma rua com seis residências de alvenaria com fachadas semelhantes na Junta.

Se alguém pedisse outra pessoa para fazer o esboço da fachada das primeiras duas casas num papel, essa pessoa inspirar-se-ia numa “palhota quadrada e civilizada”: desenharia um triângulo de base larga, depois um quadrado sob a base do triângulo. A seguir, dividiria o quadrado em duas partes iguais, do lado esquerdo colocaria o desenho de uma janela [quarto frontal], e do lado direito faria um traço horizontal à meia altura. E, na parte superior do traço, desenharia um meio circo que partiria do pilar do quarto, tocaria a base do triângulo e terminaria noutro pilar [varanda]. Depois, na lateral da varanda, desenharia uma escada de três degraus para facilitar a entrada.

As duas casas seguintes eram diferentes das primeiras duas. As fachadas tinham, em cada uma, um largo trapézio em cima e um rectângulo na forma horizontal sob o trapézio. Tinham ao lado direito um rectângulo de um metro de largura na forma vertical. Sobre o rectângulo vertical e na parte superior, à direita do rectângulo horizontal, iniciava um caimento em forma de triângulo. As fachadas das restantes residências eram semelhantes às primeiras duas. Na parte do quarto frontal as primeiras duas tinham a cor amarela, e na zona da varanda eram cinzentas. As outras duas, que não tinham varanda frontal, ostentavam as mesmas cores, mas a cinzenta estava na parte do rectângulo vertical.

A rua dava acesso ao Bairro Luís Cabral e tinha o sentido oeste e este. Era uma rua alcatroada. A série de residências semelhantes estava à esquerda, de quem partia de oeste para este. Os pátios das residências eram protegidos por muros de aproximadamente um metro, e tinham portões da mesma altura. Todas as casas tinham sido construídas na época em que Moçambique era uma Província Ultramarina Portuguesa. Eram residências para os técnicos do Laboratório de Engenharia. O laboratório estava localizado atrás das casas.

Quem caminhava sobre a berma para mais adiante da rua, depois da série de residências com fachadas semelhantes, encontrava três edifícios de primeiro andar. Eram todos amarelos, cada um deles tinha seis pilares vermelhos e entre eles havia cinco janelas em cada piso. Ao lado esquerdo de cada um deles havia uma espécie de coluna cinzenta, junto ao prédio, com uma porta em baixo, de onde as pessoas tinham acesso às escadas. Eram os edifícios para os engenheiros do Laboratório de Engenharia. Uma flat para cada família.

Em 1975, Moçambique passou de Província Ultramarina Portuguesa para país. Depois de os portugueses deixarem o território, os moçambicanos que trabalhavam no laboratório ficaram com as residências. A família do engenheiro Almeida Chirindza estabeleceu-se na flat do primeiro andar do primeiro edifício (oeste ao este) em 1985, idos do Bairro do Aeroporto, onde vivia numa casa tipo quatro.

-*-

Era uma mulher de corpo forte. Deveria ter 1,65 metro de altura. O andar dela estava meio desorientado. Estava ao lado de outras duas senhoras. Também estavam tristes. Caminhavam no sentido oeste para este, na berma da rua que estava em frente das residências com fachadas semelhantes, na Junta. As lágrimas preenchiam o rosto daquela mulher. Estava de uma linda saia de godé azul, vestida ao acaso, mas ninguém viu. Tinha uma blusa branca decorada com desenhos prateados, com botões no meio, mas ninguém viu. Todos que se cruzaram com aquelas três mulheres não viam mais nada a não ser o rosto de Isaura, todo cheio de lágrimas.

Estavam a caminhar a um passo normal. Isaura não só estava com um andar desorientado, estava também aos prantos. Sarita, a partir da janela do primeiro andar, viu a sua mãe aos choros lá em baixo, a caminhar em direcção às escadas para a flat onde morava. Apercebeu-se também que a blusa da sua mãe estava molhada. Em tão pouco tempo a notícia se espalhou na zona e entre familiares: Almeida Chirindza morreu…

-Antes de 1997-

Últimas horas da manhã. Por volta das 10:30 horas… Ou 11:00 horas e pouco. O sol estava cada vez mais intenso. Ouvia-se um ruído de máquina. Era a popular máquina de costura: singer a pedal. A sua popularidade até se explicava: havia uma fábrica daquela máquina que estava ao longo da Avenida Pinheiro Chagas [Av. Eduardo Mondlane], na cidade de Lourenço Marques [Maputo] e era a única, na altura.

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