Biografia

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Ivone Soares

Estávamos nos últimos anos da década de 70 do Século XX, e os primeiros dos anos 80. Moçambique ainda estava na euforia da Independência Nacional e o Executivo estava na sua fase inicial de experiência governativa.

Falar daquele período é pronunciar-se sobre o tempo de fome. É articular palavras para descrever a altura em que o Estado abastecia as famílias e era obrigatório poupar. É, também, relembrar de um período em que quase ninguém tinha luxo, a produção era em série e não havia exclusividade na roupa nem nos alimentos.

Foi naquele ambiente que a cidade de Maputo viu nascer Maria Ivone Rensamo Bernardo Soares, a 23 de Outubro de 1979.

Ela é filha do engenheiro electrónico, Liberato Bernardo Soares, e de Maria Arminda Rensamo Dhlakama. O pai é natural da Zambézia, enquanto a mãe nasceu em Sofala. Arminda foi antiga combatente da luta pela Independência. Aos 12 anos de idade juntou-se à Frente de Libertação de Moçambique.

Ivone Soares cresceu no bairro Central e morava perto da Catedral de Maputo, onde teve uma infância feliz.

O hábito de andar adornada começou quando tinha cinco anos de idade. Ivone encantava-se com a elegância da sua mãe. Arminda era uma mulher da moda, tinha uma boutique, ao pé da casa, e fazia as roupas para os grandes dirigentes do país, homens e mulheres. E vestia-se bem. Sempre que a mãe saísse, Ivone corria para contemplá-la, a partir da varanda de casa.

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Aos poucos tornou-se fã da sua mãe. Quando os seus pais se preparavam para o trabalho, às 7:30 horas, Ivoninha, como era carinhosamente tratada, fazia questão de arrumar o cabelo e usar o vestido mais limpo e engomado, como se fosse sair para algum evento. Mas não ia a nenhum lugar. A ideia era criar condições para que os pais não vissem falha no seu comportamento e, assim, estar sempre pronta, caso os pais quisessem sair com ela. A vontade de querer que os seus pais tivessem orgulho dela, fez com que ela se colocasse comportamentos e restrições.

Na infância, “bebeu” um pouco da profissão do pai. Liberato tinha uma oficina dentro de casa, onde fazia os seus trabalhos. Foi lá, onde Ivone aprendeu a estanhar e a fazer ligações entre fios, sem causar curto-circuitos. E ainda pequena, ajudava a mãe a reparar cassetes. Com o auxílio de uma lapiseira adiantava-as e recuava-as, para que pudessem ouvir as músicas que quisessem, sobretudo as cassetes de Roberto Carlos. Naquela altura, quando o pai questionava o que queria ser no futuro, ela respondia: “Quero ser chamada de Dr.ª Maria Ivone Soares e Juíza Presidente do Tribunal Supremo”.

Tendo aquele sonho como estímulo, Ivone fez o ensino primário em instituições públicas. Tais são os casos das escolas primária 16 de Junho e de Maxaquene. Foi naquelas escolas, onde conheceu as suas inesquecíveis professoras - Goreth e Natália -, que a ensinaram a escrever as primeiras frases, a calcular, a contar e a falar correctamente a língua portuguesa.

Quando tinha apenas oito anos de idade, a sua infância feliz conheceu uma interrupção. O rosto de Ivoninha foi preenchido por lágrimas. O seu pai morreu. Liberato Soares perdeu a vida ainda jovem, tinha 36 anos de idade.

Ivone continuou abraçada aos estudos. Na escola, foi caracterizada como uma aluna “inquisidora”. Manteve aquela forma de ser até à universidade. Aliás, chegou a ser uma das melhores estudantes, mas conta que foi injustiçada. É que a melhor média global foi a de 14 valores, mas somente dois colegas foram destacados, e ignoraram-na, mesmo tendo a média 14, tal como os outros dois rapazes.

Ivone Soares licenciou-se em Ciências de Comunicação e é Mestre em Administração Pública. O facto não a permite realizar o sonho de infância, mas pensa em fazer uma outra licenciatura, quando tiver menos ocupações na vida política.

Carreira política

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Na sua adolescência, Ivone andava atenta ao processo da negociação entre o Governo e a Resistência Nacional de Moçambique (RENAMO) para o fim da Guerra Civil. Acompanhava os desenvolvimentos políticos pela rádio e televisão por dois motivos: sabia que os seus familiares tinham sido fuzilados por pensar diferente; e estava curiosa para conhecer o tio Afonso Dhlakama, líder da RENAMO.

Após a assinatura dos Acordos de Paz, em 1992, seguiu-se o processo de preparação das primeiras eleições multipartidárias. Quando ela tinha 14 anos, iniciou a actividade política. Não tinha idade para votar. Ela colou cartazes na via pública e mobilizou jovens com idade para votar para elegerem Dhlakama e o partido RENAMO. Depois passou a participar nas reuniões de jovens, do mais antigo partido da oposição em Moçambique.

Aos 18 anos de idade, obteve o cartão de membro da Renamo e informou à família sobre a sua filiação. Uns apoiaram a decisão e outros ficaram escandalizados. Disseram-lhe que estava a hipotecar o seu futuro, pois não teria emprego por pertencer a um partido da oposição.

Em alguns focos de opinião há, ainda, quem diz que o seu erro foi a escolha do partido. Entretanto, Ivone tem repostado: “a Renamo está no meu DNA. E ela defende princípios e valores, que estou disposta a envelhecer defendendo-os.”

No mundo político, Ivone tem estado a crescer paulatinamente e conquistado simpatia ao nível da população. Aliás, em 2014, foi considerada como uma das 50 personalidades emergentes no continente africano. O reconhecimento foi-lhe atribuído pela revista The Africa Report, uma publicação francesa.

Ivone desempenhou várias funções na Renamo, desde a de chefe do Departamento de Relações Internacionais, passando pelo cargo de porta-voz do Gabinete Central de Eleições, a membro da Comissão Política Nacional, composta por 11 membros, entre os quais, o seu tio Afonso Dhlakama, que é presidente do partido.

Sobre este último aspecto, os críticos tem afirmado que Ivone ascendeu pelo facto de ser familiar do líder do partido. Contudo, a jovem refuta dizendo que o seu ídolo, Afonso Dhlakama, é contra promoção de familiares, e se fosse, estariam os filhos, os irmãos, e outros sobrinhos. Ademais, Soares não apoia privilégios injustificados.

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A jovem começou a conquistar a atenção da sociedade moçambicana após ser eleita deputada, nas eleições de 2009. Usando das ferramentas adquiridas na sua licenciatura, a parlamentar adoptou uma forma de ser e estar juvenil. Não passava despercebida. Tudo cuidado ao mínimo detalhe, desde a sua aparência física, conteúdo e ao tom de convicção, que se podia perceber quando fosse discursar.

Aos 31 anos de idade, ascendeu ao cargo de vice-presidente da Comissão das Relações Internacionais, e segunda vice-presidente do Gabinete da Juventude Parlamentar (2010-2013). Entre 2013 e 2014, desempenhou a função de Relatora da Comissão de Ética Parlamentar.

Em Fevereiro de 2014, foi eleita Presidente da Liga da Juventude da Renamo. Foi um ano inesquecível para Ivone Soares. A deputada desempenhou um papel central no retorno do líder da Renamo, Afonso Dhlakama, à cidade de Maputo, a 4 de Setembro. Refira-se que o presidente da “perdiz” esteve, por aproximadamente dois anos, em lugar “desconhecido”, sabendo-se apenas que estava na província de Sofala. Durante aquele período registaram-se conflitos armados em Muxúnguè.

A jovem política foi responsável por levar cinco embaixadores à Sandjunjira, distrito de Sofala, para se encontrarem com Dhlakama e convencê-lo a abandonar a mata; ir à capital assinar o acordo de cessação das hostilidades militares (a 5/9/2014), e voltar para política a tempo das eleições de Outubro de 2014.

No pleito eleitoral, Dhlakama ficou oficialmente no segundo lugar, apesar de não reconhecer os resultados. Todavia, o seu partido aumentou o número de assentos parlamentares de 51 para 89.

Em 2015, a deputada Ivone Soares assumiu os cargos de Chefe da Bancada da Renamo, no parlamento moçambicano, Vice-Presidente da Juventude no Continente Africano e Membro da Comissão Permanente de Justiça e Direitos Humanos no Parlamento Pan-africano.

Casada com o empresário italiano Giovanni Chierici, desde Novembro de 2003, Ivone também é poetisa, blogueira e colunista em alguns jornais privados moçambicanos.

Bibliografia

Não Existe Renamo Militarista”. Ídolo [cidade de Maputo] Dezembro de 2014: pág. 26-32. Impresso.

“ALGUMAS PESSOAS COBRAM O FACTO DE EU NÃO TER FILHOS”. Missanga [cidade de Maputo] 15 de Agosto de 2014: pág. 8-15. Impresso.

TAVARES, Isabel. «Marcelo deve esforçar-se mais para garantir a paz em Moçambique». Acesso em: 4/10/2016.

A VERDADE. Renamo suspende boicote do Parlamento e seus deputados tomam posse. Acesso em: 2/04/2016.

A VERDADE. Ivone Soares, uma vaidosa congénita e sem contemplações. Acesso em: 2/04/2016.

O País. Ivone Soares vai chefiar bancada da Renamo. Acesso em: 2/04/2016.

O País. Ivone Soares e Manteigas na Comissão Política. Acesso em: 2/04/2016.

DW África. “Luto para que Moçambique seja um país modelo em África”, diz deputada da RENAMO. Acesso em: 2/04/2016.

Portuguese Independent News. Maria Ivone Soares, a jovem “estrela” da Renamo. Acesso em: 2/04/2016.

MATAVELE, Américo. Afinal quem manda na Renamo?. Acesso em: 2/04/2016.

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