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Afinal? Os polícias… (parte II)

A contragosto Nilson caminhava, entristecido, muito entristecido. O rosto denunciava que estava a chorar, mas as lágrimas não saiam. Chorava por dentro. Era princípio de tarde, há muito tempo que Nilson não metia algo na boca, mas a tristeza era tanta que até silenciou a fome. Sofia e Nilson caminhavam lado a lado naquele corredor, a cela ficava no fundo do corredor, numa falsa saída dos fundos.

– Tens ideia de quem pode ter roubado? – questionou Sofia, em voz baixa.

– Não

– Tenha calma, o segredo nessa sala é ser humilde e saber impor respeito sem pedir. Se souberes fazer isso vais conviver com todos sem problemas. Vou procurar os teus familiares, com eles vou resolver o teu assunto. Mais cedo ou mais tarde iremos encontrar o ladrão, mas vai aguentando.

– Obrigado!

Sofia levou a mão direita ao bolso direito da sua calça de uniforme, mas não encontrou as chaves. Olhou para cima e logo olhou para baixo. E, rapidamente, levou a mão esquerda para o bolso esquerdo e tirou de lá um molho de chaves. Introduziu uma chave da marca do cadeado prateado, não abriu. Tirou uma outra e introduziu, não abriu. A seguir, olhou para Nilson e levantou as sobrancelhas, e introduziu a terceira chave da marca do cadeado e conseguiu abri-lo. E em seguida, com a mão direita, bateu três vezes na porta feita de chapa e ferro, e depois abriu-a.

Nilson fechou os olhos e abriu. Era tanta gente naquela cela. Todos começaram a murmurar. Nilson estava atrás de Sofia. A agente policial afastou-se para a direita, e movimentou a cabeça, dando sinal a Nilson para entrar na cela. O jovem entrou e Sofia fechou a porta, reorganizou a corrente por fora e trancou com o cadeado prateado.

-*-

Era um quadrado. Tinha três paredes e meia, uma à direita, outra à esquerda, e a última junto à porta dos fundos da esquadra. A entrada principal da esquadra estava virada para este, e a cela estava na parte traseira da esquadra, de costas para este. A quarta parede tinha um metro e meio de altura, daí até ao tecto havia grades. Aquelas grades foram montadas propositadamente para cumprir com a velha máxima: ver o sol aos quadradinhos. Antes de Nilson chegar, eram 27 pessoas naquela cela. Todos vestidos com a sua roupa. O vestuário de alguns sinalizava que não mudavam há meses, e outros tinham roupas limpas e bonitas, nem pareciam que estavam na cela.

Depois de ver as pessoas puxou o ar da cela com atenção. Ali fedia… Fedia à urina e fezes… Rapidamente, Nilson olhou para direita para ver de onde vinha aquele mau cheiro. Deparou-se com uma casa de banho em más condições e sem porta.

– Bem-vindo! – surgiu uma voz, que silenciou por completo a cela.

– Boa tarde! Obrigado!

– Não disse boa tarde porque aqui não temos relógios. Olha… Meu nome é Roberto, sou o chefe nesta cela. Cheguei aqui há anos e não pretendo sair daqui, todos obedecem as minhas ordens. Diga-nos o teu nome e porquê estás aqui? – questionou, sob olhar atento de todos.

– Nilson… Meu nome é Nilson. Acusaram-me de ter roubado um mini-bus.

– Ouve cá jovem… Não nos atrapalha com o teu português… Diga assim comigo: roubei um mini-bus, e a polícia apanhou-me…

– Estou a falar a verdade irmão. Não roubei

– E você aceitou entrar na cela enquanto não roubou?

– Inventaram uma história e obrigaram-me a assinar…

– Coitado! – lamentou Roberto, estendendo a mão direita.

Nilson correspondeu ao pedido de aperto de mão e depois cedeu também ao pedido de abraço, para depois o Roberto seguir com a conversa:

– Tens duas alternativas: ser VIP; ou ser um preso comum. O preso VIP tem regalias aqui na cela: tem direito à minha protecção; respeito obrigatório de todos nesta cela; lugar privilegiado para dormir; receber bom tratamento de todos; não cartar água e ser um dos primeiros a tomar banho. O preso comum não tem regalias e massacramos quando bem entendermos. O que prefere?

– Ser VIP…

– Para ser preso VIP tens de pagar 2000 meticais. Esse dinheiro não é para mim. Somos 27 nesta cela, muitos aqui foram abandonados por seus familiares e não tem o que comer. Esse dinheiro é para eu poder comprar algo para eles.

– Não tenho o dinheiro.

– Vira-se… Tens até amanhã para me entregar esse dinheiro, caso contrário não te vamos poupar. Até lá vais sendo VIP.

A preocupação aconchegou-se no jovem Nilson…

– Agora vou apresentar-te… Aqui somos organizados. Eu sou o chefe, mas temos também chefe de dança; chefe do banho; chefe de música; chefe de disciplina; e chefe de desporto – revelou Roberto, apontando cada um deles.

Nilson apertou a mão de cada um deles.

– Dormimos quando fica escuro e acordamos quando fica claro. Aqui todos dormem e acordam à mesma hora. Vai se acostumando com o cheiro daqui, estás na cadeia, não na tua casa. Yaa... basicamente é essa cena. O resto vais pegar com o tempo.

Depois de trocar as primeiras impressões com o chefe da cela, Nilson conversou com boa parte da sua nova família. Era um jovem pronto a escutar e deixava os outros contarem as suas histórias, criando uma forma de estimular através da comunicação fáctica. Pelas histórias, Nilson viu que alguns foram encarcerados sem terem cometido crime, mas a maioria merecia estar naquela cela. Esses últimos estavam na cadeia por crimes como roubo de cimento nas obras onde estavam a construir; assalto de electrodomésticos; roubo de telemóveis nas paragens; enfim…

-*-

Quando o sol começou a se ausentar, o chefe do banho, Francisco, bateu as palmas duas vezes, e quando todos na cela olharam para ele, ele ordenou:

– Kelvin e Jorge cartem água para tomarmos banho, rápido.

Kelvin e Jorge eram tidos como os mais fracos da cela. Quando se tinha de sacrificar alguém para alguma actividade eram eles. Eram miúdos, eles próprios não sabiam dizer qual era a real idade deles, mas deviam ter por 18/19 anos de idade.

Os dois foram até à porta de chapa e pediram licença. Um polícia foi lá abrir a porta. Quando a porta da cela estava aberta, Kelvin entrou na casa de banho e saiu de lá com dois baldes de 50 litros cada. Entregou a Jorge que ficou na porta a espera. A seguir, foram com o polícia para o quintal da esquadra e encheram os dois baldes numa torneira e cada um carregou 50 litros de água até a cela.

Quando Kelvin e Jorge entraram com os baldes, o polícia ajeitou a corrente por fora e trancou com o cadeado. Dentro da cela estavam todos em fila para tomar banho. Em primeiro lugar estava o Roberto, depois o chefe do banho, entre outros chefes de sectores, Nilson [o VIP provisório], e a seguir, os presos comuns. Kelvin e Jorge estavam em último lugar.

Um minuto depois, Roberto já estava a sair da casa de banho. Francisco ficou por dois minutos, não mais do que isso. Os outros chefes ficaram um, um minuto e meio. Então chegou a vez de Nilson. O jovem entrou na casa de banho e assustou-se. Aquilo devia ter um metro de largura e um e meio de cumprimento. A sanita estava de costas para porta, e a banheira rectangular estava em frente à sanita, junto à parede. Não havia fossas convencionais, as águas negras saíam e aconchegavam bem ao lado da casa de banho. À primeira, apercebeu-se que os que acabavam de tomar banho não usaram muita água e procurou sabonete…

– Não vejo o sabonete aqui… – gritou Nilson.

– Pfutseka… Não estás na tua casa aqui… Sabonete, sabonete o quê? Toma banho aí e sai, deixa de nos atrapalhar o juízo – gritou espontaneamente um dos que estava na fila.

Nilson despiu-se, entrou na banheira e começou a tomar banho. Como não havia sabonete, ele esfregava com as mãos algumas partes do corpo…

– Estás a demorar porquê? – questionou aos gritos um dos presos na fila – chefe, esse está há mais de três minutos e não sai – queixou-se.

– Está a acabar água esse – gritou Alex, um outro preso na fila.

O grito de Alex deixou todos que estavam na fila em pânico. Os 21 que ainda esperavam a sua vez para o banho abandonaram a fila e foram até a porta da casa de banho gritando:

– Estás a acabar água, saaai sai sai sai sai sai… saaaai lá.. sai… não queremos saber… estas a acabar água… todos devem tomar banho com essa água não temos outra.

Francisco bateu palmas duas vezes e todos ficaram quietos. Então foi à porta da casa de banho e ordenou:

– Nilson, sai… O seu tempo terminou, cada um deve ficar, no máximo, um minuto e meio da minha cabeça, e todos devem usar pouca água…

– Desculpa, só estou a terminar.

– Não! Fica assim. Veste e sai.

Nilson teve de sair com alguns rolos de sujidade no pescoço e água em algumas partes do corpo. A atitude de Francisco mereceu aplausos de todos que entraram em pânico, que sucessivamente tomaram o seu banho da tarde.

-*-

Através das grades, todos puderam ver que já estava a ficar escuro. Enquanto a noite se estabelecia, dentro da cela iniciava uma movimentação estranha para Nilson. Era uma luta onde venciam os mais fortes. Tratava-se duma luta de marcação de território para dormir. Ninguém tocava no outro, bastava escolher a alternativa ideal e franzir a testa.

– Não se atrapalha Nilson. Essa é a vida deles. Você é VIP, tem um lugar para dormir em paz… Aquele canto ali é para ti – sossegou-lhe Roberto, apontando o canto esquerdo, para quem entrava pela porta.

Nilson e os chefes eram os únicos com os lugares fixos. Os outros disputavam um pequeno espaço para passar a noite. Nilson procurou o sono sobre uma manta dobrada e estendida no chão, mas não conseguiu. Depois enrolou-se na manta, atenuou o frio. A noite passava, o sono não se revelava. Na cela, alguns roncavam e havia o ruído dos mosquitos, foram os sons que acompanharam a noite em claro de Nilson.

-*-

A mulher estava sentada no único banco que havia naquela sala. Era um banco feito de madeiras finas e cumpridas, sem encosto, mas estava junto à parede. Então, Rute aproveitava-se e fazia da parede o seu encosto. Ela estava vestida de uma blusa azul de mangas curtas. As mangas apenas cobriam os ombros, denunciando o seu corpo forte. A capulana, [tecido africano] amarrada a rigor, completava a indumentária. E nas mãos levava uma pequena carteira amarela rectangular e um plástico com tigelas de comida. O saco plástico tinha gotas de vapor por dentro, Rute acordou à madrugada para prepará-la.

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