Biografia

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Beijo fora da hora

Aconteceu… Aconteceu numa rua suburbana do bairro Fomento, na Matola. A rua estava após o comando policial e um pouco depois do posto policial. Não havia iluminação. Estava bem escuro. Com a destra, Osvaldo Chunguane pegou Samiana Manuel pela cintura e puxou-lhe para junto do seu corpo, pousou os lábios no pescoço e aos poucos, através de beijinhos, foi para a bochecha, e bem devagarinho foi para a boca.

O casal estava tão animado ali na sessão do beijo. De repente, ouviu-se um som estranho e uma luz forte focou as caras do casal entretido no beijo. Osvaldo e Samiana interromperam o momento apaixonante assustados e olharam de onde vinha a luz. O polícia direccionou a luz da lanterna para baixo.

– Boa noite! – saudou Osvaldo, Samiana foi parar nas costas do seu namorado.

– É hora para beijar esta? – questionou com ar autoritário o polícia, sem lanterna.

Aquilo ficou zuueeeeeeeeeeee…. Era um silêncio total, nem som de movimento nem som de árvores nem de pequenos animais chiando nem nada… Tudo mudo…

– 00:10 horas vocês estão a beijar-se na rua…. É hora de estar fora de casa esta? Estão numa rua escura como se não bastasse – questionou o polícia que tinha segurado lanterna, enquanto mostrava o pulso direito para o casal ver o relógio.

– Estou a acompanhar a minha namorada para casa.

– Está a acompanhar ou está a beijar? Vêm de onde?

– Eu estudo na Escola Secundária da Polana e a minha namorada estuda na Secundária da Matola. Como hoje tinha último tempo e saiu às 22:45h e a essa hora já não há transporte para esta zona, ela pediu que lhe buscasse e acompanhasse para casa.

– E beijar…

– É minha namorada… Saímos da Escola Secundária da Matola a pé até aqui. Ela já está perto de casa, protegida e tudo, então estamos a despedir-nos. Sempre nos despedimos assim, com um beijo.

– Miúda, ele é teu namorado?

– Sim – respondeu Samiana, ainda assustada, olhando para aquelas armas grandes, que os polícias levavam consigo.

– Onde é tua casa – questionou o polícia sem lanterna, líder da dupla.

Samiana afastou-se de Osvaldo, levantou a mão direita, encolheu todos dedos excepto o indicador, e com ele apontou a casa dela, que ficava mais para o fim da rua, que tinha um formato de “T”.

– Você pode ir. Mas teu namorado fica, vai fazer patrulha connosco para aprender a não beijar na rua às 00:00 horas.

Samiana fez um gesto de despedida para o seu namorado e tomou o seu rumo. O polícia desligou a lanterna. Tudo voltou a ficar escuro, mas depois de uns segundos as vistas adaptaram-se e os três conseguiam ver-se. O outro polícia ordenou:

– Jovem! Vamos embora…

Os polícias estavam uniformizados, era notório, apesar da escuridão. Tinham armas penduradas no ombro, através de uma espécie de cinto. Não tinham chamboco. Osvaldo começou a perceber que estava frio. Caminharam em direcção à estrada (av. 25 de Setembro), mas logo, muito antes de chegar na avenida, viraram pela primeira esquina que encontraram.

– Agora estamos a castigar-te, mas se por acaso acontecer alguma coisa com aquela moça estás preso.

– Então vamos voltar agora. Vamos acompanhar ela até o portão de casa, depois voltamos.

– Está bem – aceitaram os polícias.

Os três recuaram, mas logo que voltaram à rua em que foram encontrados, já não se via Samiana. Ela evaporou… desapareceu… sumiu da rua.

– Onde está a tua namorada? – questionou o líder da dupla policial.

O outro polícia iniciou uma longa gargalhada e quando se acalmou, ainda entre risos, disse:

– A tua namorada fugiu. O amor dele acaba no perigo! Vamos à patrulha…

Os dois polícias, entre risos, voltaram à patrulha com o Osvaldo. Era uma caminhada tremenda. Entravam de uma rua, mudavam para outra, viravam para outra, mas sempre na direcção sul.

– Onde vives?

– Machava…

Osvaldo mentiu, a pensar que eles teriam pena dele. Mas mentiu mal. Machava era muito longe daquele local para ser verdade. Era muito longe para quem da cidade de Maputo, foi buscar a sua namorada na escola, e caminhou quase dois quilómetros a pé, acompanhando-lhe para casa. Como se não bastasse, aquela hora não havia transporte para Machava, então era muito mais longe ainda. Mas os polícias fingiram que acreditaram.

– Chefe! Já andamos muito com ele. Podemos deixá-lo ir embora.

– Nada… Este é para aprender…

– Mas estava a fazer uma coisa boa. Estava a acompanhar a namorada dele para casa. Vamos deixar ele…

– Então me levem para a esquadra – pediu Osvaldo, com um ar afrontador.

Eram 3:00 horas, ainda estava escuro, não muito, mas estava. O líder da dupla parou bruscamente a marcha. Estavam já numa rua iluminada, grande parte da rua não tinha iluminação pública. A iluminação era das casas, umas tinham a luz da varanda acesa, outras tinham candeeiros luminosos sobre os pilares do muro frontal. Ainda assim, era possível ver o chão de areia, algumas pedras ou covinhas na rua… enfim, andava-se sem tropeçar.

– Não se vai à esquadra nenhuma aqui…

– Chefe!

– Você é polícia ou amigo dele…?

– Sinto pena dele. Esse nem tem dinheiro para nos pagar lanche, só está a sofrer. Apenas estava a acompanhar a namorada, muitos bandidos que há por aí e ele estava a proteger, não fica bem. Vamos deixar ele na esquadra, que é perto, e depois ele levanta cedo para Machava.

– Não! Esquadra não é castigo, só vai esperar amanhecer, e depois lhe mandar varrer ou lavar os pratos ou coisinhas que não tem nada a ver. Este tem de fazer patrulha para aprender de uma vez por todas.

Os três ficaram calados e o líder reiniciou a marcha em direcção à estrada. Os três apareceram no cruzamento do Fomento, na Avenida 25 de Setembro. A avenida 25 de Setembro era grande, caberia para uma estrada mais larga, mas só tinha duas faixas. A estrada estava a um metro das casas, à direita, para quem vai em direcção norte e deixava um enorme espaço de areia à esquerda. Naquela avenida havia iluminação pública, posto com candeeiros, não havia gente circulando. A estrada que cruzava tinha sentido oeste-este, que dava acesso à Estrada Nacional N.º 2, também com duas faixas. De tanto serem antigas, os sinais de trânsito no chão, já não se viam.

Havia um estabelecimento comercial feito de chapas, do lado esquerdo da estrada principal. O estabelecimento tinha a cor vermelha. À frente do estabelecimento havia um "outdoor" grande, suportado por duas cantoneiras brancas nos lados, a dois metros da terra. Ainda naquela esquina, do lado oposto do estabelecimento comercial, à direita da estrada, havia um muro chapiscado a cinzento, um dos lados do muro estava ao lado da estrada que dava acesso à Estrada Nacional N.º 2, e outro estava em frente a avenida 25 de Setembro, ao lado do muro. Mas depois da estrada, havia um ATM do BCI. Era um ATM de cabine “transportável”. De frente para a ATM, havia umas três barracas feitas de betão. Aquela zona entre a ATM e as barracas, estava totalmente alcatroada, o resto da avenida, o alcatrão era apenas de duas faixas e deixava uma das margens com areia.

Os três pararam na área totalmente alcatroada, bem em frente das barracas, que estavam fechadas. Pararam para descansar da longa caminhada.

– Qual é o teu nome? – questionou o líder da dupla policial.

– Osvaldo Chunguane.

– Aham! Então você pertence a família Chunguane. Muito bem! Muito bem! Tens quantos anos?

– 23...

– Muito bem! Muito bem! Faça 23 flexões, rápido! – ordenou, com ar autoritário.

Osvaldo ajoelhou-se no alcatrão e ficou na posição de início de flexões e começou: 1, 2, 3,… quando chegou a 20…

– Eh! Você miúdo, treina onde?

Osvaldo não falou nada, continuou ali…

– Nada, falhamos, 23 mutumbazes para ti, não é nada. Faz 50.

Osvaldo reiniciou. Os polícias continuaram em pé a assistir. Osvaldo fez as 50 flexões naturalmente. Fez as 50 mutumbazes como se estivesse a beber água.

– Nada, uni moral mupfana… 100 mutumbazes com a mão direita. Vamos embora…

Ainda no chão, e posicionado, Osvaldo levou a mão esquerda para as costas e suportado pela mão direita, começou a fazer as 100 flexões… Quando chegou a 62, começou a fazer um esforço para levantar, veio a dor e o cansaço, ainda tentou esforçar-se mais um pouco, mas só chegou às 94 e caiu.

– Maluco! Pensa que nos pode desafiar até aonde? Levanta-se e vamos continuar a patrulha.

Os dois polícias caminharam. Osvaldo ainda levou um tempinho para se pôr em pé, mas depois se levantou e seguiu. Os dois caminhavam para o sul, já não entravam para o bairro, iam pela estrada iluminada. A avenida 25 de Setembro, na direcção que seguiam, estava inclinada e havia uma pequena ponte sobre um pequeno rio. A ponte devia ter dois metros, e seguia-se uma subida. A estrada terminava em frente de duas casas, uma com muro chapiscado a cor de laranja, com grades brancas e outra com cor de cimento e grades brancas. Aquilo formava uma espécie de “T”. A saída à esquerda (oeste) era uma rua sem asfalto, à direita (este) tinha asfalto de uns 10 metros, e depois era areia. No “T” havia uma pequena rotunda. E onde terminava o muro da casa com cor de cimento e grades brancas havia uma via alcatroada. Os três fizeram a rotunda, seguiram pela direita (no “T”), mas viraram pela via alcatroada e continuaram a caminhar no sentido sul.

Naquela estrada, de duas faixas, também havia iluminação pública. Os muros de betão dos quintais que ladeavam a via estavam a um metro da estrada. Os três caminharam por ali. Aquela via desaguava numa estrada que atravessava, formando um outro “T”, a que atravessava era alcatroada de duas faixas no sentido oeste-este, e vinha da Estrada Nacional N.º 2. A via onde desaguaram estava entre casas também. Aí preferiram entrar pela esquerda e viraram pela primeira rua à direita: a rua da Escola Industrial e Comercial da Matola. Continuaram a caminhar para o sul. Já eram cerca das 4:00 horas e já estava a ficar claro. A rua era de terra batida. A escola estava à direita, a uns 50 metros da estrada, e do lado oposto havia um grande externato: terreno grande, vários blocos de quartos. A tripla não dizia nada um ao outro, simplesmente andavam para o sul.

Osvaldo começou a ficar animado, mas não expunha. A sua alegria estava dentro dele. Não podia dizer aos polícias que estava na zona da casa dele, ele havia dito que vivia na Machava. Depois de uns 500 metros, e a passar pela Rua da Mesquita, à direita, optaram por entrar à esquerda, pela Rua das Barreiras. Os polícias já estavam visivelmente cansados, Osvaldo também. Caminharam para oeste, em direcção ao Mercado Magica, popular mercado da Matola “F”.

O mercado tinha uma cooperativa e uma mercearia por fora. Depois havia uma entrada, dentro havia bancas precárias, feitas de estacas, chapa de zinco e cobertas por sacos de arroz vazios, montadas de forma desordenada. Mas o rosto externo do mercado era apreciável. Depois da entrada, havia uma barraca de brinquedos, uma farmácia construída com betão e vidro, outras barracas de brinquedos, alimentos, e bebidas. E depois a segunda entrada. Do lado de fora estava tudo fechado. No interior, ouvia-se música, em alto volume e gritos alegres.

– Ya! Jovem, agora já podes ir para tua casa – disse o líder da dupla policial.

Osvaldo não disse nada. Fez gesto de “tchau” e continuou a andar pela Rua das Barreiras no sentido oeste, depois de passar duas casas costa a costa, havia uma esquina. Osvaldo olhou para trás e viu que os polícias ainda estavam ali parados a olhar para ele e virou para a direita, no sentido sul, mas decidiu voltar para Rua das Barreiras. Posicionou-se em frente da que tinha acabado de virar, parou, olhou para os polícias e rindo gritou:

– Estava a mentir para vocês. Eu não vivo na Machava, vivo na rua do centro. Obrigado por me terem acompanhado para casa.

Depois do grito, Osvaldo pôs-se em fuga por aquela rua, em direcção sul, deixando a Rua das Barreiras vazia. Os polícias simularam um perseguição, mas só deram uns quatro passos depois voltaram e entraram no mercado.

-*-

Por volta das 12:00 horas, Samiana ligou para Osvaldo para saber o que tinha acontecido. O namorado começou por perguntar a razão da sua fuga. Samiana pediu desculpas, alegando medo. Depois, Osvaldo disse para ela que acabava de acordar e que tinha sofrido na patrulha, mas não chegaram a lhe algemar e nem lhe bateram. Aproveitaram o bónus da Vodacom para conversar em torno do sucedido. No fim, decidiram que sempre que Samiana tivesse último tempo ou saísse às 22:45 horas por um outro motivo, iria dormir em casa da tia, que ficava próximo da Escola Secundária da Matola, e a partir daquele dia Osvaldo passou a não andar de noite pelas bandas do Fomento.

-Fim-

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