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Não quero a mãe do meu filho

 

Tinha uma altura normal para a sua idade. Era uma adolescente negra. Não era magra nem gorda. O corpo dela era normal, mas mal distribuído. À luz da beleza universalmente aceite no século XXI, combinando o corpo e o rosto, ela não era bonita, não era meio bonita e nem era feia. Era uma mistura de tudo: uma confusão.

A Rua das Barreiras estava num bairro suburbano da cidade da Matola. Era uma rua de areia apenas, ladeada por casas de gente de renda baixa, média-baixa e média. Algumas vivendas tinham muros feitos de betão, alguns rebocados e outros não. Casas haviam que não tinham muro, apenas umas plantas de espinhosa para proteger o seu quintal. Liundi Morais percorria a rua no sentido Este, em direcção ao Mercado Magica, um espaço comercial da Matola “F”.

Eram cerca de 14:00 horas e pouco. Liundi vestia bermudas azuis com uma oval vertical pálida na parte frontal das coxas; sapatos rasos; e para que o frio que marcava a despedida do inverno, em Setembro, não lhe pegasse de jeito, tinha vestido uma camisola branca, de "zipper" (fecho-éclair) vertical no meio, com duas tiras pretas na zona do vinco das mangas.

O rosto da adolescente era de preocupação. Caminhava a um passo normal, mas como se estivesse a roubar ou a fugir de alguma coisa. Tinha medo de encontrar-se com alguém por ali. Aliás, Liundi partiu da Matola “D” à procura de uma farmácia na Matola “F”, porque queria tratar o seu assunto de forma mais secreta e a sua amiga alertou-lhe que o secretismo só seria possível num bairro, onde ninguém lhe conhecia e ela não conhecia ninguém.

– Olá! Soube que tem uma farmácia por aqui. Onde fica? – perguntou Liundi à umas crianças que brincavam na rua.

– É mais adiante. Vai, passa essa esquina, vai ver uma cooperativa de nigerianos deste lado, continua, vai ver uma mercearia, depois tem entrada do mercado, não entra, você continua, passa a ferragem, passa aquele sítio que tem colunas, sim vendem colunas e brinquedos, depois dali é farmácia – explicaram três crianças em coro e por vezes intercalados, enquanto levantavam sempre a mão esquerda para indicar.

– Moça, estás doente? – perguntou uma outra criança.

– Não! Só quero comprar umas coisas lá – respondeu Liundi.

– É depois daquelas colunas, que estão em frente daquela barraca. Já não é longe – sossegou-lhe o menino.

Liundi seguiu a orientação e em pouco tempo viu-se em frente à farmácia. Era toda ela pintada de branco. Tinha um muro de um metro, e daí para cima era só vidro. A porta era de alumínio, mas metade tinha vidro. A zona do vidro estava protegida com grades feitas de cantoneiras montadas em intervalos regulares na forma vertical. A porta ficava sempre fechada e na altura de 1,60 metros tinha uma cartolina devidamente assinalada: Aberto; e em letras mais pequenas: empurre a porta.

A adolescente entrou e do outro lado do balcão todo ele feito de vidro e com medicamentos em baixo, estava um adulto com bata branca.

– Boa tarde! – saudou Liundi.

– Boa tarde! Como podemos ajudar? – reagiu o farmacêutico.

– Tem teste de gravidez?

– Sim! Temos "Confirme Plus". Posso dar?

– Sim! E peço que me explique como funciona

– Mandaram-te? – questionou, enquanto levava o teste.

– Uma amiga minha pediu – mentiu Liundi.

– Aqui tem as instruções. Mas irei explicar – disse o farmacêutico, que se manteve indiferente perante a mentira.

Depois da explicação, Liundi saiu às pressas. Os ponteiros do relógio da farmácia estavam próximos das 15:00 horas e ela precisava chegar à casa muito antes do seu irmão mais novo voltar da escola, e seus pais voltarem do trabalho.

-*-

Liundi era de uma família de renda média-baixa. O salário dos seus pais apenas aguentava por uns 20 dias e o resto do mês faziam-se arranjos até chegar o salário do mês seguinte. Os quatro viviam numa casa com quintal grande e uma dependência no fim do terreno. O imóvel tinha dois quartos, uma sala, uma varanda, e uma cozinha (apenas cozinhava-se e arrumava-se a louça, pois a lava-louça estava no quintal). A casa de banho era independente: ficava ao lado da casa, que ainda não tinha sido pintada, estava toda ela rebocada de forma simples.

Por volta das 15:50 horas Liundi entrou pelo portão da sua casa. Estava tudo trancado, tal como ela deixou. Foi directo para casa de banho, os mais rigorosos chamariam de latrina adaptada, pois a única louça de casa de banho que tinha era a sanita. Era pequena, descoberta, e o espaço de banho era feita de bloco e cimento. Naquela latrina adaptada não havia chuveiro, quem queria tomar banho cartava água com uma bacia na torneira e carregava até à casa de banho.

Liundi não tinha tempo a perder. Enquanto ia à casa de banho tirou o dispositivo do envelope. Quando entrou, despiu-se parcialmente e foi até à sanita, sentou-se, e com a mão esquerda segurou o pequeno "Confirme Plus" na zona do suporte, e com a mão direita tirou a tampa que cobria a membrana absorvente, afastou as suas nádegas um pouco para trás sobre a sanita, e quando viu que já havia um lugar para introduzir a sua mão esquerda para dentro da sanita entre as pernas, fê-lo. Com cuidado urinou sobre a membrana absorvente. Com a mesma cautela tirou a mão esquerda que tinha segurado o dispositivo, tapou e deixou sobre o murinho do lugar onde se tomava o banho.

Após ter deixado o dispositivo, vestiu-se e espreitou o seu telemóvel para confirmar a hora. A sanita não tinha autoclismo, ao lado apenas havia um balde com água. Liundi carregou no balde e despejou no interior da sanita. Depois, ajoelhou e fez uma oração. Quando sentiu que os cinco minutos estavam próximos, interrompeu a oração, ainda ajoelhada apoiou as suas nádegas junto aos seus calcanhares, sem ter descalçado os seus sapatos rasos, olhou para o céu, já com as duas mãos sobre as coxas olhou para as horas no telemóvel e, de seguida, olhou para a janela de resultados do "Confirme Plus"… A dor, a aflição, o desgosto transbordaram pelos olhos da menina de 17 anos de idade. O teste foi positivo. Liundi estava grávida!

-*-

seu passado muda

Quase, quase no fim da estrada que ligava todo Moçambique, a Estrada Nacional n.º 1 (EN1), do lado da cidade de Maputo, havia um lugar chamado “Junta”. À Sul, estava a uns poucos metros do cemitério de Lhanguene. Ao norte estava próximo do Aeroporto Internacional de Maputo.

Junta era um terminal dos transportes rodoviários inter-provinciais. Algo parecido com pista de desembarque e embarque dos pobres ou de gente que por algum motivo não usava o avião para viajar de uma província para outra. Era um terminal conhecido por milhões de moçambicanos, que abandonavam suas raízes para ir tentar a vida em Maputo, em tempos a cidade de sonhos para quem não vivia lá.

O lugar não era lá grande coisa. De dia era mar de gente se movimentando de um lado para o outro. Havia uma rotunda na Junta. Ligadas à rotunda estavam: à Sul e à Norte, a EN1 com quatro faixas, separadas com um pavimento no meio; à Oeste uma pequena estrada de duas faixas; e a Este uma outra estrada de duas faixas, que dava acesso ao parque de desembarque e embarque, no fim da estrada encontrava-se a Av. Angola, que dava acesso ao Aeroporto Internacional de Mavalane (Maputo).

Ainda ao lado da estrada havia uma rotunda, tinha um espaço um pouco grande, com chão de areia, que quando chovia tornava-se matope. Bem ao lado da pequena estrada de duas faixas, ficavam senhoras assando e vendendo frangos ao ar livre. Próximo delas tinha outra gente vendendo um pouco de tudo (comestível), para os acabadinhos de chegar em Maputo ou pessoas passando por ali com alguma fome.

Um machimbombo daqueles grandes e bonitos fez a curva da rotunda no fim da manhã de um sábado, no princípio do ano 2016. Ido de Manica, o machimbombo de seis rodas, quatro atrás, tinha por aí uma altura acima ou próxima dos dois metros e meio. Era branco, mas na lateral, à altura das rodas, tinha um azul ciano, e a separar o branco e o azul, tinha uma tira amarela. No meio das laterais, havia um desenho azul de um rectângulo meio inclinado e no vértice inferior esquerdo do rectângulo iniciava um risco azul, que terminava na entrada do machimbombo. No vértice superior direito do rectângulo inclinado, próximo das janelas, iniciava um risco que terminava no fim do autocarro. No segundo banco, do lado esquerdo do motorista, estava Marcos Alferes, junto à janela, de onde observava atentamente para o ambiente da Junta.

Depois do machimbombo entrar para o parque, Marcos levou a mão direita para o bolso da sua "jean´s" preta, de onde tirou um Nokia 5130 XpressMusic. Para um jovem dos seus 20 anos, ido de Manica, era um telemóvel que até dava para gingar tirando do bolso, mas se fosse um de Maputo, já estaria muito fora da moda, pois o que já estava a dar eram os Galaxy´s, smart´s kikas, e para estar dentro da moda tinha de ter no mínimo um telemóvel sem teclado, que ficaram conhecidos como “touch”.

Com o seu Xpress, Marcos pretendia enviar um SMS para o seu irmão mais velho, Victor Alferes, para avisar que estava a entrar no parque do terminal e dar indicações da cor do machimbombo para facilitar o encontro. Fê-lo. E minutos depois Victor estava já parado exactamente no local onde paravam os transportes que vinha de Manica e ansioso para receber o seu irmão que não lhe via há um ano.

Marcos era um jovem bonito. Era magro, as moças preferiam chamá-lo slim-fit. E gostava de vestir roupas justas, que exibiam a sua elegância. Ele era um pouco alto também. Tinha uns ombros, um rosto, e um olhar naturalmente sedutores. Victor não era gordo, mas tinha um corpo que tendia para gordo e era quase baixinho.

O reencontro foi alegre. Logo que Marcos desceu do machimbombo, Victor foi lá com a mão direita estendida e a palma da mão aberta na vertical e o seu irmão correspondeu ao gesto. Quando as mãos se encontraram ouviu-se até um “tchi!!”, depois as mãos ainda apertadas foram movimentadas para baixo e em simultâneo os corpos de Marcos e Victor encostaram-se, a cabeça de Marcos foi aconchegar-se para superior do ombro de Victor e a do Victor foi pousar-se no lado oposto e com a mão esquerda o mais velho bateu de forma muito leve nas costas do mais novo ao mesmo tempo que lhe dizia no ouvido: “Bem-vindo!”. A seguir ao caloroso abraço, foram os dois buscar as duas malas que estavam na bagageira do machimbombo. E no meio daquele ambiente agitado da Junta, caminharam, cada um com uma mala na mão, ao exterior do parque, onde Victor tinha estacionado o seu Toyota “runx” cinzento.

Arrumadas as malas na bagageira, os dois seguiram para Matola, onde ficava a casa de Victor.

Somos lidos

-Parte II-

Victor Alferes era um jovem de 30 anos de idade. Trocou Manica por Maputo e depois de experimentar várias actividades acabou dando-se bem como técnico de uma empresa de televisão digital. Ele ia para as casas montar antenas e quando havia avarias era também chamado e facturava 800 meticais (11 dólares) por cada casa que ia.

 

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