Revista Biografia

Lucrécia Paco

Se algum dia comprar um livro que se propõe a falar da história do teatro moçambicano e, nas primeiras 20 páginas, não vir nomes como Manuela Soeiro, Lucréncia Paco, Mutumbela Gogo, e Teatro Avenida, trata de fechar o livro e ir exigir o seu dinheiro de volta. Nessa obra não deve ter nada de jeito. Você terá sido burlado. É que não é possível falar desse tema sem mencionar os substantivos ora referidos.

Bom, primeiro tem de se dizer que Moçambique estava há poucos anos de se tornar Independente. Mas disso ninguém sabia. A Luta de Libertação Nacional estava em curso. Todavia, sendo um país sob domínio colonial, continuava a ser o colonizador, Portugal, quem ditava as regras.

As manifestações culturais africanas eram proibidas. Práticas como: falar línguas bantu; cantar canções e fazer danças tradicionais; ter um curandeiro da zona, tocando batuque; eram coisas que o colonizador não queria. Contudo, aquelas práticas não deixaram de ser realizadas pela gente nativa. As pessoas encontravam sempre alguma forma de fazê-las.

Ahm! É também necessário referir que a poligamia e ter muitos filhos era algo natural, ou seja, não tinha a conotação actual, em que se promove um homem para uma mulher e vice-versa, e depois há o planeamento familiar que aos poucos tem vindo a causar as implicações nos números de filhos por casal.

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Agora sim, já podemos começar…

Era uma vez, um pai polígamo, esposo de duas mulheres, gerou 10 filhos, cinco para cada mulher, na então cidade de Lourenço Marques. Entre eles, há uma que nasceu a 19 de Outubro de 1969, e foi atribuída o nome de Lucrência Ester Paco.

As famílias não viviam na mesma casa, mas o seu pai manteve a convivência entre as duas, tanto que Lucrência reconheceu a sua segunda mãe e relacionou-se naturalmente com os irmãos.

A infância da miúda foi passada ouvindo o roncar dos aviões e vendo-os sempre a sobrevoarem o espaço. No bairro suburbano do Aeroporto, passou mais tempo com a sua avó, uma vez que os seus pais iam trabalhar durante o dia e ela era a mais nova.

Com a avó, comunicava-se em ronga, uma língua bantu falada na província e cidade de Maputo. Naquela fase da sua vida, gostava de brincar com a natureza, cantar e fazer danças tradicionais. Isso aprendera indo espreitar quando ouvisse o som do batuque em casa do curandeiro do seu bairro. As danças eram depois praticadas no cajueiro da casa da avó.

Lucrência era de uma família pobre, tanto que só sentia o cheiro do sapato novo nas vésperas do natal. E naquela época, a sua avó chamava-lhe pelo nome Zazana Missava (algo parecido com tia areia, quando traduzido para português), que era o seu nome verdadeiro. Próximo ao aeroporto, há uma linha férrea. Zazana Missava atravessava-a (o que era proibido) para ir ao bairro da Unidade 7 assistir a dança *Ngalanga. E foi daí, onde surgiu a sua paixão pelo instrumento musical Timbila, e pelo ritmo chope.

Ngalanga é uma dança da época das guerras constantes que as pessoas da etnia Chope travaram contra os Ngonis. A dança celebrava o regresso dos guerreiros, após uma batalha, da qual tivessem saído vitoriosos. À medida que se aproximavam da aldeia, iam tocando Mpundo (grande chifre de impala), para anunciar o seu regresso e a sua vitória. Actualmente, a dança serve de passatempo para rapazes e raparigas. Os adultos participam quando for incluída na cerimónia de uma comemoração por um familiar defunto.

Dois ou três jovens, que vivem num determinado lugar, começam a cantar sozinhos, num tom muito alto e forte, batendo as palmas. O seu canto serve de chamamento, para outros jovens participarem também na dança. Quando se reúne um número razoável de dançarinos, estes formam um círculo. Os rapazes ocupam um semi-circulo e as raparigas completam a outra metade. Dois rapazes saem dançando para o centro, seguindo o ritmo da canção. Depois de se terem exibido por algum tempo, os dois vão para o semi-círculo ocupado pelas raparigas, para “kuningeta”. Este gesto consiste num rápido e fugaz abraço feito pelo rapaz à rapariga e vice-versa.

O tempo passou. Zazana Missava atingiu a idade escolar, sem saber falar muito bem o português, e gostando de cantar e fazer danças tradicionais. Ela estava, inocentemente, munida de coisas proibidas. Assim, avizinharam-se momentos de terror para a criança.

O choque começou com o seu próprio nome – Zazana Missava – na escola tinha de ser Lucrência Ester Paco. A seguir soube que tudo que gostava de fazer era proibido. Em outras palavras, Zazana Missava estava impedida de cantar e fazer danças tradicionais, e não devia falar ronga.

A jovem rebelou-se. Queria ver aquela cultura praticada na escola. Havia, na altura, um instrumento de madeira, composto de um disco no cabo, chamado palmatória. Por praticar aquela cultura apanhou muita porrada com aquele instrumento.

Em 1975, Moçambique tornou-se livre do colonialismo português. Lucrência Paco já podia libertar-se e praticar os cantos e danças tradicionais, sem ser repreendida com a palmatória.

Lucrécia Paco ao lado de Manuela Soeiro

E, quando o país conquistou a Independência, o Governo optou pelo Socialismo, adoptadando uma política de “Homem Novo” e não exploração do Homem pelo Homem. E para dessiminar a política recorreu à cultura, sobretudo ao teatro. Assim, surgiram inúmeros grupos de teatro nos bairros. Lucrência envolveu-se no movimento.

Entretanto, em 1976, iniciou uma guerra civil, envolvendo o Governo e a Resistência Nacional de Moçambique (RENAMO). Voltou-se ao estágio anterior. Nessa fase não se cantava, não se dançava, e a comida era escassa.

A miúda tinha 12 anos de idade. Foi naquela fase que o país passou a ver filmes soviéticos. Após acompanhar o primeiro filme, “Lena Procura o seu Pai”, nasceu o sonho de ser actriz de cinema. Nos anos 80, surgiram pequenos grupos, que faziam pequenas peças sobre ser moçambicano. Os grupos actuavam nas empresas e fábricas. Lucrência fazia parte do grupo “Tchova Xhita Duma”.

Em 1984, Lucrência participou no documentário “Maputo Mulher”, dirigido por Calane da Silva. Seu envolvimento no documentário fê-la perceber a importância da arte para a sociedade. O filme falava sobre a necessidade da participação da mulher na sociedade, ou seja, emancipação da mulher.

No mesmo ano, participou no casting para escolher actores que iriam participar numa peça chamada “Tchova” e foi seleccionada, tendo iniciado os primeiros trabalhos no Teatro Avenida.

Foi naquele momento que conheceu Manuela Soeiro. O teatro não era feito de forma contínua e Manuela tinha o sonho de profissionalizar aquela arte, sonho que se realizaria dois anos depois. Manuela Soeiro fundou o primeiro grupo profissional de teatro, o Mutumbela Gogo (que em português significa mascarado). Estavam presentes: João Manja; Elisa Mausse; Vitor Raposo; Graça Silva; Lucrência Paco; e Ana Magaia.

Aqueles actores tiveram um susto na primeira peça. É que eles ainda não eram conhecidos e, por isso, não tiveram plateia suficiente para aplaudir a actuação deles.

Contudo, não desistiram. Manuela Soeiro persistiu. E foi a peça “Nove Horas” [1989] que viria a marcar a história do grupo. Daí em diante, com a sala preenchida aos sábados e domingos, viu-se a possibilidade de apresentar às quartas, quintas e sextas-feiras.

A dedicação de Lucrência ao teatro causou problemas em casa, pois o seu pai queria que ela estudasse. O seu aproveitamento pedagógico declinou e ela chumbou. O pai proibiu-lhe de fazer teatro.

Manuela Soeiro foi falar com o pai. Na ocasião, dissera-lhe:

– Garanto que vou fazer da sua filha uma estrela e que o teatro não é uma brincadeira.

Depois de longas horas de negociação, o pai cedeu e Lucrência voltou aos palcos. Todavia, ele não chegou a ver Lucrência “estrela”, pois perdeu a vida quando a sua filha ainda era jovem.

Lucrência Paco de volta aos palcos

A profissionalização do teatro foi um desafio. Moçambique ainda estava em guerra e havia muita carência de comida. Por força disso, o grupo teatral teve de montar uma padaria para sustentar a arte, uma ideia que partiu de Manuela Soeiro. A padaria foi montada no balcão, e foi assim: enquanto os actores ensaiavam, do outro lado estavam os padeiros amassando o pão, enquanto cantavam.

O teatro feito pelo grupo não era de escrita, isto porque a tradição africana é baseada na oralidade. O grupo optou por fazer adaptações de obras, contos, crónicas. Trabalhou muito com Mia Couto, por exemplo. Buscou e adoptou um processo de retextualização, passando textos escritos para o teatro. Trabalhou-se, também, com improvisação e, mais tarde, com a dramatização.

Por exemplo, naquela altura de guerra, fizeram uma adaptação de Lisístrata que, em seu texto original, conta a história de mulheres que fazem greve de sexo para acabar com a guerra. Mas sempre que eles abordavam um tema, mesmo que ele fosse uma adaptação, procuravam pôr algo que tocasse a sensibilidade do público. Por isso, saíam ao campo para pesquisar. Naquele caso, conversaram com as mulheres que trabalhavam nos mercados. As opiniões ficaram divididas, mas no fim viu-se que foi geral a opinião de que não se fizesse uma greve de sexo. Então a peça teve outro final. Ela chamou-se “Amor Vem” e foi apresentada nos bairros e mercados, no momento em que se iniciavam as discussões para os acordos de paz.

A proximidade do grupo com os escritores moçambicanos tinha a ver com o facto dos últimos inspirarem-se em alguma realidade para escreverem os seus livros. Exemplo disso, foi a primeira obra de Mia Couto que adaptaram. Ela era uma forte crítica ao sistema burocrático e à corrupção em Moçambique. No dia da apresentação estavam os políticos na plateia e riram-se muito da sátira. Aquela forma de fazer o teatro é a que tem prevalecido de forma dominante no teatro moçambicano.

Peça “Mulher Asfalto”

É a peça mais popular da artista. Através dela, Lucrência é referenciada nos media, tanto nacional quanto internacional. É um monólogo. O texto pertence à Alain-Kamal Martial, e a artista fez a tradução e a versão teatral.

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A peça surgiu em 2005. Os dois artistas encontraram-se em Madagáscar, no âmbito de um projecto cultural. No workshop, ele foi o parceiro de Lucrência para escrever um texto sobre algo que lhes tivesse chamado atenção, em Madagáscar. E o que lhes tinha comovido foi ver uma prostituta a ser brutalmente espancada por um polícia. “A mulher caía no chão e levantava-se. Caía de novo e mais uma vez levantava-se. Caía e levantava-se sem deixar de falar”.

Alain-Kamal escreveu um pequeno poema sobre o sucedido e Ela representou. Depois, os dois trocaram correspondências, e no final, Alain-Kamal escreveu um livro intitulado “O Epílogo de uma Prostituta”. Quando ele foi convidado para fazer a apresentação do livro no Festival de Avignon, em França, chamou Lucrência para fazer a leitura do texto. Durante hora e vinte minutos, as pessoas ficaram sentadas a escutá-la, aquele foi um dos momentos mais marcantes da carreira da actriz. Em 2007, Lucrência decidiu que o texto não podia ficar por ali e decidiu fazer uma versão para a dramaturgia cénica.

Em 2010, participou como actriz protagonista na primeira novela moçambicana – “Ninetens”. A telenovela foi exibida entre 1 de Fevereiro e 25 de Março, na Televisão Independente de Moçambique (TIM). Teve 38 capítulos e é da autoria de Chico Amorim.

Família, convicções e sonhos

Lucrência Paco é mãe de três filhos, sendo dois deles gémeos. A poliglota é defensora de mentalidade aberta e que as pessoas devem seguir a sua vocação. “Temos muitos doutores, mas na hora de fazer, não se entregam, porque só quiseram o diploma”. Acredita também que o ser humano só deixa de existir quando pára de sonhar.

A actriz deseja um dia ver um centro cultural em cada bairro, onde se possa fazer teatro. Pretende, também, trabalhar com crianças e criar um espaço para o teatro infantil no país.

Em Moçambique, Lucrência Ester Paco é uma das actrizes mais internacionais.

Referências Bibliográficas

“Apanhei muito por Cantar”. LUA [cidade de Maputo] 22 de Julho de 2012: pág. 21-25. Impresso.

OMENELICK, [consult. 2016-05-18 21:22:01]. Disponível na Internet: http://omenelick2ato.com/entrevistas/lucrecia-paco/

SAPOSTYLE, [consult. 2016-05-18 22:25:07]. Disponível na Internet: http://lifestyle.sapo.mz/vida-e-carreira/em-foco/artigos/lucrecia-paco-mulher-asfalto?artigo-completo=sim

O PAÍS, 2016 [consult. 2016-05-19 18:17:50]. Disponível na Internet: http://opais.sapo.mz/index.php/cultura/82-cultura/27527-abracos-a-lucrecia-paco.html

AFRIBUKU, 2015 – 2016 [consult. 2016-05-20 19:30:13]. Disponível na Internet: http://www.afribuku.com/teatro-mozambique-lucrecia-paco-mia-couto-henning-mankell/#prettyPhoto

CULTURA MOZ, 2012 – 2016 [consult. 2016-05-25 20:40:16]. Disponível na Internet: http://marceloadecastro.blogspot.com/2012/03/danca-do-chopes.html

Mozambique Web Show. “MWS LUCRECIA PACO”. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=pA1ov_XQvME> Acessado a: 24/04/2016.

About Author /

É jornalista e webdesigner desde Setembro de 2013. Na sua caminhada jornalística, está registada sua passagem pelo jornal O Nacional; Revista ÍDOLO, onde chegou a desempenhar as funções de editor executivo; para além de ter sido oficial de marketing digital na Ariella Boats. Foi, também, jornalista correspondente da Revista MACAU, em Moçambique. Actualmente é jornalista do jornal Notícias. É, desde 2020, licenciado em jornalismo, pela Universidade Eduardo Mondlane (UEM). Sua caminhada no mundo do empreendedorismo digital iniciou com o lançamento da plataforma Biografia, em 2016. É também, o fundador do site evangelístico Chave de Davi, em 2018; e da loja online O Ardina Digital. Todos projectos foram concebidos ao lado do seu amigo Deanof Potompuanha.

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